terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dilma Rousseff cita Basho

Compartilho a matéria publicada na Folha de S. Paulo do dia 26 de dezembro de 2010, onde a presidenta eleita Dilma Rousseff fala de suas preferências literárias, citando Matsuo Basho. Em tempo: não foi ele que inventou o haicai, mas aperfeiçou-o de tal forma que se tornou, até hoje, o haicaista mais citado de todos os tempos.

Dilmoteca básica

Eleita não tem autor favorito, gosta de Proust e faz "estoque" de livros
FERNANDO RODRIGUES
DE BRASÍLIA

No início deste ano, numa das sessões de entrevistas que concedeu à Folha, Dilma Rousseff falava sobre suas preferências no futebol. Declarou-se fã do Atlético, em Minas Gerais, e do Internacional, no Rio Grande do Sul.
Recordou-se de sua primeira vez no Maracanã, no Rio, em 1969. Um jogo do Flamengo. Estava na clandestinidade. "Eu fiquei assim abestalhada com as bandeiras. Você já viu as bandeiras?", perguntou e já respondeu: "É de perder o fôlego".
Mas foi uma memória seletiva. Não se lembrava do placar nem contra quem o Flamengo jogava. Com quem estava? Nenhuma lembrança.
Começou então a falar sobre como as imagens vão se colando -ou não- na memória das pessoas. "Eu fico pensando se sou eu ou se todo mundo é assim. Você sabe que eu nunca havia me lembrado disso até hoje?", disse.
A recordação veio porque a conversa era para compor um perfil biográfico. Naquele instante, esporte e cultura popular dominavam a entrevista. Foi quando ela citou suas referências literárias.
"Sobre a memória, quem tem razão era o [Marcel] Proust. Ele falava do sabor e do odor, dois sentidos primitivos que suportam um edifício imenso da recordação".
Descreveu o trecho do romance "Em Busca do Tempo Perdido", publicado no início do século passado, no qual Proust fala de comer madeleines e tomar chá -e como o cheiro e o sabor desencadeiam recordações.
De todas as diferenças entre a presidente eleita, Dilma Rousseff, e o seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, uma das mais marcantes é sólida formação literária da próxima ocupante do Palácio do Planalto.
Não há um autor favorito na prateleira de Dilma. "Depende da fase", diz. "Em matéria de poesia, eu gosto do João Cabral de Melo Neto, muito". Aí cita Cecília Meireles, Fernando Pessoa e completa: "Agora, eu consigo além disso gostar do Bashô. Sabe quem é Bashô?".
Com prazer, ela mesma responde: "Foi um monge japonês que inventou o haicai". A lista de citações não para.
"Gosto apaixonadamente de uma mulher chamada Emily Dickinson, "a senhora de Amherst". Não tenho "um" gosto. Depende. Gostei do Proust para mais de metro. Agora, também adorei, aos 13 anos, quando meu pai me deu o Jorge Amado".
O que de Jorge Amado? "Foi "Capitães da Areia" , "São Jorge dos Ilhéus", todos os outros. Amei de paixão o Machado de Assis, mas também o Monteiro Lobato. A Emília, o Pedrinho, a Narizinho, o Visconde, a Cuca."
Começa um diálogo sobre como dá trabalho manter uma biblioteca arrumada. No início deste ano, Dilma cogitava comprar uma casa para guardar o seu acervo.
"Eu compro muito livro, sempre mais do que consigo ler. Tenho aquela teoria de que estou fazendo um estoque. Que um dia vai chegar uma hora que eu vou ler. Então, vai que naquele momento eu não tenha condição de comprar? Vai que aconteça alguma coisa e eu não tenha condição de ficar comprando livro? Então, eu estoco."
Ainda como ministra de Lula, participou de uma viagem à China. "Enchi a paciência do embaixador para me dizer qual era o romance chinês equivalente aos romances nossos. Qual é o Charles Dickens deles. Qual era o Balzac, o Flaubert, o Shakespeare."
Trouxe para o Brasil um romance chinês, traduzido para o inglês. Leu com dificuldades. Três volumes. "Mas o diabo não era isso. Eram os nomes das personagens". Como assim? "Temos uma baixíssima familiaridade com nomes chineses", explica. Para chegar até o final e conseguir não se perder no meio da trama, uma estratégia: "Você anota todos os nomes [próprios] num papel para não se perder totalmente".

Para assinantes do jornal, o link é http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2612201011.htm

domingo, 19 de dezembro de 2010

Boas festas e um feliz 2011

A celebração de final de ano, realizada anualmente no sítio de Teruko Oda e família, reuniu representantes do Grêmio de Haicai Ipê (SP), do Caminho das Águas (Santos/SP) e Águas de Março (RJ).

Em clima de boas vibrações, os participantes curtiram apresentações, como a de tai chi chuan. O destaque foi a sessão de ginko (pronúncia: guinkô), passeios poéticos para composição de haicais.

"Mestre Goga nos dizia que haicai é 'acima de tudo, amizade, respeito e capturar a luz que emana das coisas antes que ela se apague'", explica Teruko Oda, membro do Grêmio de Haicai Ipê desde 1989 e atual mentora do grupo.

Este ano, o haicai campeão foi de Teruko Oda:

Velho galinheiro --
no trançado de cipós
flores de campânula


O segundo colocado é de Edson Iura, coordenador do Grêmio de Haicai Ipê:

O tênue zunir
das asas do colibri
ao redor da flor









Se você planeja saber mais de haicai em 2011, além de acompanhar este blog você pode ficar atento à Revista Brasileira de Haicai. Para participar do Grêmio de Haicai Ipê, os contatos podem ser feitos com Edson Iura por meio do e-mail kakinet@kakinet.com.

Votos de boas festas e um feliz 2011! Monica Martinez

Texto: Monica Martinez
Fotos: Teruko Oda

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Partida de pássaros

Compartilho um de meus haicais que foi selecionado em novembro de 2011 para a seção Haicai dos Leitores, do jornal Nippo Brasil.

Sob o sol morno
os galhos vazios desta árvore –
Partida de pássaros


Os haicais dos demais colegas selecionados podem ser apreciados neste link

Um abraço a todos,

Monica

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

Final de Toró

Outro dia, indo para o bairro da Liberdade, vi uma cena que transformei no haicai abaixo. Pena que o sinal abriu e eu não pude fotografá-la.

Final de toró --
Um chapéu de feltro preto
flutua na poça

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

22.o Encontro Brasileiro de Haicai

Haicaístas

É com satisfação que posto o convite abaixo:

- - - - -

Temos o prazer de anunciar a realização do 22.o Encontro Brasileiro de
Haicai.

Data: 6 de novembro de 2010 (sábado)

Horário: das 14h00 às 17h00

Local: Associação Miyagui Kenjinkai do Brasil
Rua Fagundes, 152, Liberdade, São Paulo, SP
(Entre as estações de metrô Liberdade e São Joaquim)

Programa

12h00- Recepção

14h00- Abertura

14h30- Grande Desafio - Tradicional concurso, promovido desde 1986, onde os
participantes são desafiados a escrever um haicai em 20 minutos, a partir de
um tema proposto na hora. Os vencedores serão conhecidos ao fim do evento.

15h30- Palestra

"Haicai brasileiro: nem tradição, nem modernidade" -- Edson Kenji Iura
Sob todos os aspectos, o haicai é uma forma poética inventada no Brasil.
Ao analisar sua evolução, o palestrante propicia um olhar diferenciado
sobre o passado, o presente e o futuro, rompendo velhos paradigmas. Edson
Kenji Iura é haicaísta, membro do Grêmio Haicai Ipê, administrador do fórum
eletrônico Haikai-L e colaborador do Jornal Nippo-Brasil e da revista
Brasil Nikkei Bungaku.

16h10- Apresentação musical: Conjunto "Teclas e Flautas em Harmonia", de São
Vicente

16h30- Premiação dos vencedores do 9o Concurso Brasileiro de Haicai
Infanto-juvenil

16h45- Premiação dos vencedores do Grande Desafio

17h00- Encerramento

Página oficial do Encontro: http://www.kakinet.com/encontro/

Maiores informações:
Edson Kenji Iura
kakinet@gmail.com
www.kakinet.com

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Novo livro de Teruko Oda


Não consegui interromper a leitura do livro da haicaista Teruko Oda antes da última página. E, quando lá cheguei, senti não ter nada mais a ler pela frente.

Para apresentar a autora de forma breve (uma vez que o currículo dela é extenso), basta dizer que Teruko é considerada a maior haicaista brasileira desta modalidade de haicai brasileiro inspirada nos clássicos japoneses.

Para quem não sabe o que é haicai, trata-se de um gênero poético praticado desde o século XVII caracterizado pela métrica curta (três versos de cinco, sete e cinco sílabas, respectivamente) e pelos termos de estação (chamados kigos), que deixam claro para leitores qual época e sentimento o poeta quer expressar.

O prefácio é escrito por Paulo Franchetti, professor titular do departamento de Teoria Literária da Unicamp – provavelmente o maior teórico do país no assunto e ele mesmo um sensível haicaísta (aliás, vale a leitura de Oeste, em edição primorosa do Ateliê Editorial lançada em 2008). Franchetti declara: “Várias vezes, na leitura fiquei comovido. Primeiro, pela beleza pungente de muitos haicais e outros tantos trechos de prosa, que formam com eles um conjunto harmônico, de extrema delicadeza. Depois, porque este livro representa um momento de apogeu no processo de aclimatação do haicai à língua portuguesa e à literatura brasileira (...)”.

É sobre o primeiro ponto que gostaria de comentar. Como pesquisadora na área de Comunicação Social, com enfoque em relatos biográficos e narrativas de não-ficção, eu fiquei encantada com este livro que emprega o gênero haibun, estilo de composição literária que combina texto em prosa com poesia. A princípio, até, Teruko começa tímida com a prosa, que logo engrena e por meio dela, entremeada de belos haicais, ficamos sabendo não apenas sobre sua vida, mas também a história da implantação do haicai no país.

Em Trilha Estreita ao Confim, o mestre maior do gênero, Basho (1644-1694), combina seus relatos de viagem com haicais como o poeta errante que era. Em Furusato no Uta Canção da Terra Natal, Teruko resgata a visão feminina de filha de imigrantes japoneses, em sua inter-relação simbiótica com a terra. Num certo sentido, também, é o canto do cisne da cultura caipira paulista, francamente em colapso, uma vez que baseada na vivência cotidiana com a natureza e não nas questões ambientais vistas pelos aparatos virtuais, como hoje é mais comum. Talvez resida, aqui, a grandeza da obra: ela aponta um caminho concreto para quem deseja estreitar seu relacionamento com a natureza.

Um caminho duro, é verdade, pois demanda ao adulto resgatar o olhar da criança que aprende a ler o mundo, bem como a humildade de aprender o nome deste pássaro e daquela planta, como se começássemos um idioma novo. Neste sentido, talvez, resida a importância do haicai na contemporaneidade: a descoberta de que, sob o conhecido, há um mundo realmente novo à espera do diálogo, do encantamento e de sentidos atentos.

Monica Martinez

Livro: Furusato no uta: canção da terra natal
Autor: Teruko Oda /Apresentação: Paulo Franchetti (Unicamp)
Editora: Escrituras (www.escrituras.com.br)
Gênero: Haicai/Poesia/Literatura brasileira
Edição: 1ª edição
Páginas: 64
Formato: 14 X 21 cm
Peso: 135 g
Preço na editora: R$ 15,00

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Vento minuano

Vento minuano –
A única testemunha
de antigas batalhas


É com satisfação que compartilho um dos meus haicais que foi selecionado na seleção de agosto de 2010 no espaço Haicai dos Leitores, do Jornal Nippobrasil. O link, para quem desejar apreciar o trabalho dos outros autores, é http://www.nippobrasil.com.br/zashi/3.haicai.leitores/400.shtml

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Abacaxi

As gotas pingam
do abacaxi recém-cortado --
e eu sem um tostão!


Selecionado na revista Brasil Nikkei Bungaku, no. 36, de novembro de 2010.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Acelga

Acelga, quem diria, também é marcador de estação (kigo), no caso de inverno. Segue abaixo um muito bem votado na reunião do dia 7 de agosto de 2010 do Grêmio de Haicai Ipê:

Desfeitas a faca --
As nervuras delicadas
das folhas da acelga

Haicai de Monica Martinez

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ivan Lessa escreve sobre haicais na Folha de S. Paulo

A aluna Luciana Jabur encaminhou-me o link do texto abaixo, cuja leitura recomendo!
Um abraço a todos,
Monica

21/04/2010 - 07h30
Política & Poesia
IVAN LESSA
colunista da BBC Brasil

Que eu saiba, nenhum dos três candidatos dos principais partidos britânicos ao posto de primeiro-ministro, ora em plena disputa eleitoral, perpetuou um soneto shakespeariano como parte de sua campanha política. Estranho, um pouco, a omissão. Os ingleses são bons de verso, métrica e rima e até de pé quebrado eles versejam. Está no sangue deles. Nenhum país do mundo moderno legou ao mundo tanto poeta de primeiríssima classe.

A poesia é necessária, dizemos nós no Brasil, que entendemos algo do assunto e também dá para nos gabarmos. Nossos poetas acabam não só na Academia de Letras, mas também virando estátuas (com ou sem óculos), ícones populares e temas de enredo para escola de samba. Praticamos a poesia com algum desembaraço e muito talento. Uma geral pelo espaço eletrônico confirmará minhas palavras.

Poesia e política, intitulei eu estas modestas linhas. Temos, sim. De Drummond, e sua carta a Stalingrado, ao Vinícius de Moraes pré-Garota de Ipanema, pedindo, em 1946, anistia para todo mundo, Luís Carlos Prestes inclusive. São apenas dois. Já chegarei aos poetas populares.

O que me trouxe ao assunto foi o fato de que os jornais divulgaram a notícia de que o novo presidente do Conselho Europeu, o holandês Herman van Rompuy, lançou, na semana passada, um livro de 128 páginas só de haikais (ou ainda haicus e também haicais, segundo o Houaiss), uma das mais delicadas formas poéticas já boladas pelos homens.

Claro que o haikai (vamos optar por essa forma) tem sua origem no Japão e é secular. Trata-se um haikai de um poema de 3 linhas, contendo, na primeira e na última, 5 sílabas ou mais, sendo que a segunda linha deve, ou tem, que ter, 7 sílabas, totalizando sempre, pois, 17 sílabas. Trata-se da mais breve das formas poéticas e, além do mais, os haikais devem conter uma referência a alguma estação do ano, obedecerem aos ditames naturalistas e, em sua substância, primar pelo sentido de observação.

Tivemos e temos nossos eméritos praticantes do haikai. Guilherme de Almeida, o chamado "poeta da Revolução de 1932", foi não só um deles como também, dizem, seu introdutor no Brasil. Millôr Fernandes, para variar, fez do haicai (ele prefere haicai; respeitemo-lo) mais uma de suas marcas registradas.

Dou um único exemplo de um haikai clássico, só para terem uma ideia. É da autoria de Shuhei Uetsuka (1876-1935), mais conhecido como Hyôkotsu. Consta que a composição foi o resultado do primeiro contato do poeta com o porto de Santos:

A nau imigrante

Chegando: vê-se lá do alto

A cascata seca.

Tentem vocês um haikai. Ou mesmo haicu ou haicai. O importante é dar ouvidos às musas. Ou à musa, se estiver desacompanhada.

Quanto aos versos do político holandês, tentei mas não consegui dar com o ratinho num deles no espaço cibernético. Para compensar, venho lembrar uma tradição que é só nossa e ninguém nos tira ou imita. Nem mesmo um mestre japonês como o renomado Matsu Basho, segundo certas autoridades o inventor e maior praticante do gênero. Refiro-me à nossa Literatura de Cordel. Uma poesia popular, originalmente oral, mais tarde, e até hoje, impressa em folhetos rústicos expostos para venda em cordas ou cordéis, daí seu nome.

Pois nossos cordelistas continuam firmes e já se informatizaram. Um amigo prezado me enviou, ainda recentemente, uma obra do Miguezim de Princesa, paraibano radicado em Brasília. O nome das dez sextilhas (cordel é sempre em sextilhas) é Um PAC com Dilma e, dele, pincei os dois versos que se seguem, só para dar um cunho nacionalista e politizado à minha prosa pobre. Segurem aí e, se possível, depois, via uma ferramenta de busca, procurem se familiarizar com mais obras do Miguezim, que o homem é danado de bom:

"Quando vi Dilma Roussef

Sair na televisão

Com o rosto renovado

Após uma operação,

Senti que o poder transforma:

Avestruz vira pavão."

E:

"A mulher, que era emburrada,

Anda agora sorridente,

Acenando para o povo,

Alegre, mostrando o dente,

E os baba-ovos gritando:

É Dilma pra presidente!"

Link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u723846.shtml

segunda-feira, 24 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

Texto de Alice Ruiz na Revista do Sesc-SP

Amigos haicaístas,

Embora ela não seja dedicada à vertente japonesa do haicai, vale a pena conhecer o texto da haicaísta curitiba Alice Ruiz, publicado na edição 156 (maio de 2010) da revista Sesc São Paulo:

Instrumento da arte
A poeta Alice Ruiz comenta a relação que mantém com os haicais e lembra do o começo frustrante com as palavras e como desenvolveu o ofício de letrista

Poeta e compositora, Alice Ruiz traz a cifra da arte desde a infância. Apesar do contato inicial com a literatura ter se dado no campo da prosa – escreveu o primeiro conto aos nove anos de idade –, foi pelas tramas da poesia que a artista curitibana teceu sua trajetória literária. Autora de poemas haicais – forma poética de origem japonesa caracterizada pela concisão e objetividade –, Alice enveredou por essa expressão artística elementar quando conheceu o também poeta Paulo Leminski, com quem viria a se casar aos 22 anos.

Com 19 livros publicados, entre poesia, traduções e uma obra infantil, a poeta também tem uma longa carreira como compositora musical. Tendo realizado sua primeira parceria com o marido, Alice já compôs como letrista ao lado de nomes como Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Ceumar, José Miguel Wisnik e Zeca Baleiro. Compositora desde os 26 anos, Alice tem mais de 50 músicas gravadas por parceiros e intérpretes.
Ano passado, a poeta foi agraciada com o prêmio Jabuti de Poesia pelo livro “Dois em Um”, editado pela Iluminuras.

Paralelamente ao trabalho com a literatura e com a música, a artista constantemente é convidada para ministrar oficinas sobre haicais, muitas delas nas unidades do Sesc.

A seguir, Alice conta um pouco de sua experiência, revela como se deu a aproximação com o universo literário, fala sobre o primeiro contato com a poesia haicai, comenta as vicissitudes que diferenciam o ofício do letrista e o do poeta, e descreve, em conversa com a Revista E, o impulso criador que a conduz ao fazer literário: “Eu faço poesia porque ela quer que eu faça, porque ela manda em mim. E eu obedeço. Eu sou apenas um instrumento dela”, confessa.

As primeiras letras
Meu começo de carreira foi meio frustrante. Um dos meus tios, que inclusive tinha nascido no mesmo dia em que eu, era poeta e pintor. Único da família com essa veia artística, ele morreu precocemente, por problemas com o álcool, quando eu tinha apenas dois anos.

Por conta disso, minha família passou a atribuir à arte aquela tragédia. Lembro-me nitidamente da pressão que eles começaram a exercer para que eu me distanciasse dos livros quando perceberam minha inclinação para a literatura. Tanto é que o único livro que tínhamos em casa era a bíblia, livro que eu, por falta de opção e movida por uma sede intensa de leitura, acabei relendo inúmeras vezes.

Essa situação se estendeu até o ginásio, quando descobri a biblioteca do colégio. Aí eu me entreguei finalmente àquela paixão, talvez até um pouco provocada pela proibição. Eu não saía da biblioteca, era uma leitora extremamente ávida. Lembro-me que aos 11 anos ganhei de uma professora um livro de Monteiro Lobato, A Chave do Tamanho [Editora Brasiliense, 1997]; de ali por diante, me enveredei por toda a literatura dele, depois disso, comecei a me interessar por outras coisas, romances...

É interessante que, ao mesmo tempo, minha aproximação com a poesia não tenha sido imediata. Talvez porque a abordagem que tive na escola fosse muito distante da minha realidade de jovem adolescente. Acredito que a poesia esteja muito ligada ao momento. Penso que, para haver empatia, ela precisa dialogar com o real. Então como você pode querer que uma criança ou um adolescente se interesse por uma poesia que não fale com a realidade dele?

Então, justamente por isso, naquela época havia uma relação até paradoxal entre mim e esse gênero literário. Eu fazia poesia, mas achava que não gostava dela. E ocorre que, ao mesmo tempo, nunca consegui parar de escrever, eu escrevia meu diário como todo mundo, só que entre aquelas memórias da adolescência já esboçava uns poemas. Enfim, eu tinha uma necessidade muito grande de me expressar. No fundo, acho que de certa forma todo mundo faz isso, mas aquele que é escritor mesmo continua e não para nunca.

Gênese poética
Esse “dar-se conta” da minha inclinação para a poesia começou a ganhar força quando passei a ter contato com escritores de Curitiba, como o Wilson Bueno e o Jamil Snege. Comecei a mostrar aos poucos as coisas que eu escrevia, sempre ligadas à natureza.

Muito tempo depois fui conhecer o haicai, isso foi aos 22 anos, quando o Paulo [Leminski] me apresentou essa forma de poesia. Eu fiquei besta, porque já fazia poemas curtos sobre a natureza, não dentro das regras nipônicas nem permeados por aqueles elementos estilísticos específicos, mas o curioso é que eu já tinha essa inclinação.

O embrião estava lá, mas eu só me dei conta mesmo quando o Paulo me apresentou. Foi engraçado quando eu mostrei a ele os poemas e ele disse: “Nossa, você faz haicai!”. E eu pensando: “Não faço a menor ideia do que é haicai!”. Mas foi aí que eu entrei de cabeça e isso acabou se transformando numa feliz coincidência.

Verso e música
O mesmo se deu em relação à música. Acho que a letrista em mim nasceu por causa do rock, foi na minha geração que a coisa estourou. Por curtir, eu ficava tentando traduzir as canções e quando meu inglês não dava conta eu inventava. Mas fazia isso considerando os elementos característicos de uma letra musical, eu inventava dentro da métrica, com a rima, com a tônica certa. De modo que, inconscientemente, já estava praticando o ofício de letrista desde aquela época. Só não tinha dimensão daquilo.

E é justamente por isso que eu faço questão de distinguir muito bem a letra musical de um poema. São manifestações artísticas diferentes. No meu processo de criação, percebo que a letra é mais provocada, ou por parceiros que me dão a música para pôr letra ou por circunstância mesmo de estar junto a eles. É uma coisa muitas vezes feita a dois. Então tem uma provocação que vem de fora.

“(...) nunca consegui parar de escrever, escrevia meu diário como todo mundo, só que entre aquelas memórias da adolescência já esboçava uns poemas. No fundo, todo mundo faz isso, mas aquele que é escritor, mesmo, continua e não para nunca”

Já o haicai é um estado muito especial de desapego de mim mesma, um exercício de distanciamento para fazer parte do todo. Percebo que a poesia, por fim, é o que dá muito mais trabalho, um trabalho de leitura, um trabalho intenso de tentar uma universalidade cada vez maior, de expressar o que interessa ao maior número de pessoas.

Aliás, acredito que essa é a mais sofrida das criações, não pelo momento do fazer poético em si, mas por tudo que está por trás de um poema finalizado. Às vezes passo anos gestando um poema até que ele nasça. De um modo geral, eu tenho uma relação muito intensa com as palavras, eu as vejo, não apenas ouço. Alguém fala uma coisa e eu já estou jogando com elas, fazendo trocadilhos, vendo as aliterações que têm ali dentro. Vejo as palavras e penso que esse ensinamento me foi dado pela poesia.

Arte marginal
Penso que das artes a que tem menos status é a literatura, porque ela lida com menos dinheiro. O cinema trabalha com ?várias linguagens, as artes plásticas se revelam nas exposições, o músico tem o palco como espaço de expressão. Já a literatura é um universo menos glamouroso e, consequentemente, tem menos status.
Ocorre justamente que, dentro da literatura, o mais pobre dos gêneros é a poesia. Tanto que circula a lenda de que ela não vende. Isso não é verdade. Mas admito que talvez ela venda menos do que prosa, porque a prosa é mais digerível. Em seu ofício o poeta geralmente mexe com questões tão íntimas e pessoais que é quase como fazer terapia sem terapeuta. De modo que quem não está muito disposto ou quem vê literatura como entretenimento definitivamente não vai escolher poesia.

E nesse contexto é interessante observar como dentro da poesia a mais pobre de todas as formas é o haicai, porque nem é ocidental. Somado a isso, seu tema, a natureza, também é de uma simplicidade tocante e difícil de atingir. É uma forma para a qual ainda não há muita alfabetização no Ocidente. Mas, ao mesmo tempo, é impressionante o número de pessoas que praticam haicai no Brasil.

Independentemente do status que ele ocupe no contexto literário, quando penso em minha arte não a vejo com a preocupação de ocupar um espaço na cultura. Eu faço poesia porque ela quer que eu faça, porque ela manda em mim. E eu obedeço. Eu sou apenas um instrumento dela. ::

Link: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=373&Artigo_ID=5706&IDCategoria=6569&reftype=2

terça-feira, 4 de maio de 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ovos de Páscoa

Compartilho o haicai selecionado na edição de março de 2010 do Jornal Nippo-Brasileiro:

As gôndolas prontas
para os ovos de Páscoa –
Festa a caminho!

Vale a pena ver os demais em http://www.nippo.com.br/zashi/3.haicai.leitores/383.shtml

Haicai: Monica Martinez

terça-feira, 6 de abril de 2010

Arte breve, vida longa

Abaixo, o artigo do jornalista e antropólogo Rodolfo Witzig Gutilla, autor de Boa Companhia Haicai (Cia das Letras), publicado na edição de janeiro de 2010 na Revista da Cultura, da livraria de mesmo nome.

No artigo, Gutilla destaca Masuda Goga (1911-2008), fundador do Grêmio Haicai Ipê, como um pioneiro entre os imigrantes japoneses, bem como sua sobrinha, a poetisa Teruko Oda, como "a maior representante dessa vertente".

Monica Martinez

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Arte breve, vida longa

A milenar técnica japonesa de poesia haicai atravessa eras e adquire múltiplos contornos

Por Rodolfo Witzig Guttilla


Poema de origem japonesa, o haicai descende de uma antiquíssima linhagem que remonta ao século 7 depois de Cristo: nesse período, surge o waka, com versos de cinco e sete fonemas — o equivalente a sílabas métricas no ocidente. A partir de então, a poesia tradicional japonesa adotará esse metro.

Nos séculos seguintes, a forma poética predominante será o tanka, composto por 5-7-5-7-7 fonemas. Durante a Era Heian (794-1185), o tanka passa a ser criado por duas pessoas: uma encarregada da primeira estrofe (denominada hokku), outra pela estrofe seguinte (conhecida por wakiku). Com o passar do tempo, a primeira estrofe passará a denominar-se haikai.

Por volta dos séculos 16 e 17, o haikai irá constituir-se em expressão autônoma, atingindo seu apogeu no período Edo (1603-1867), graças a Matsuô Bashô (1644/1694). Em seguida, Bussôn (1716-1784), Kobayashi Issa (1763- 1827) e Massoka Shiki (1867-1902) irão estabelecer padrões de excelência para o pequeno poema. Caberia a Shiki definir as regras contemporâneas, ainda hoje perseguidas, para a criação do haiku (aglutinação de haikai e hokku), de forma a preservar a sua essência.

O haicai (como o termo seria abrasileirado) estreou no Brasil em 1906, por iniciativa de Monteiro Lobato, que pioneiramente traduziu seis haicais no diminuto jornal O Minarete. Em seguida, em 1919, caberá ao poeta Afrânio Peixoto fixar a forma do haicai à brasileira: três versos com cinco, sete e cinco pés, respectivamente, totalizando dezessete sílabas métricas.

No ano mítico de 1922, o haicai era não somente praticado como também traduzido e discutido por poetas que participaram do movimento modernista, entre eles Luis Aranha e Oswald de Andrade. Passados três anos, Carlos Drummond de Andrade lançará seus primeiros haicais na revista de variedades Para Todos, em 27 de junho de 1925.

Foi, contudo, Guilherme de Almeida que, no final dos anos 1940, tornou o haicai amplamente conhecido na cena literária por meio de artigos publicados em O Estado de S.Paulo e de bem urdidos poemas — reunidos em Poesia vária (1947– esgotado) e, quatro anos depois, em O anjo de sal (esgotado). Foi também Guilherme que inaugurou as primeiras trocas de informações sobre o haiku e o haicai entre os imigrantes e seus descendentes e os poetas nativos. Nesse contexto, cumpre destacar as iniciativas pioneiras de Shûhei Uetsuka, Nempuku Sato e H. Masuda Goga, que difundiram a prática do haiku no Brasil, fazendo inúmeros seguidores. Atualmente, a maior representante dessa vertente é a poetisa Teruko Oda, autora de diversas obras do gênero.

Em seguida, autores tão distintos como Manuel Bandeira, João Guimarães Rosa, Mario Quintana, Oldegar Vieira, Erico Verissimo e Haroldo de Campos, entre outros, irão criar, traduzir e comentar o poema haicai. Nos anos 1970, emulando o arrebatamento, a linguagem da rua e a verve galhofeira dos modernistas, Millôr Fernandes popularizou o haicai no país, projetando-o para as massas.

Graças a esse período virtuoso, o haicai irá consolidar-se como uma das mais populares formas poéticas nas duas décadas seguintes. Dentre os muitos autores que contribuíram para esse êxito, destacam-se Alice Ruiz, Paulo Leminski, Olga Savary, Pedro Xisto e os (ainda) pouco conhecidos poetas Cyro Armando Catta Preta e Waldomiro Siqueira Jr., entre outros.

Adotado ao longo do tempo por diferentes movimentos literários e correntes estéticas, o poemeto receberá variadas influências em nosso país. Irá adquirir múltiplos e surpreendentes contornos (no mais das vezes, bastante diferentes da norma tradicional, como estabelecida por Shiki, bem como das formas fixadas por Afrânio Peixoto e Guilherme de Almeida). Haicai mestiço e original, que adentrará o século 21 completamente abrasileirado. ©

Link: http://www2.livrariacultura.com.br/culturanews/rc30/index2.asp?page=artigo

sábado, 3 de abril de 2010

Haicais da Contemplação da Lua 2010

A Contemplação da Lua de 2010 aconteceu no dia 30 de março no Espaço Cultural Soto-Zenshu do templo budista Busshinji, em São Paulo. A lua demorou para aparecer, por trás dos prédios, mas a espera valeu a pena:

Confira seis haicais apresentandos:

Que ladrão roubou
do outro lado da janela
lua desta noite?
Francisco Handa

Muitos poetas
E a lua escondida
Num haicai
Carol Ribeiro

Três monges de negro
Vagam pelo pátio vazio
na noite sem lua
Edson Kenji Iura

Noite sem luar --
Minha amiga safenada
Com que sonhará?
Teruko Oda

Só nuvens, só nuvens --
Cabeças olhando o céu
procuram a lua
Eunice Arruda

As lentes vencidas --
Com esse tempo fechado,
não encontro a lua.
Neide Portugal

A noite é sem lua.
Tateando no papel
procuro um haicai
Rogério Guimarães

O rosto redondo
do monge entusiasmado.
Hoje, é a lua
Monica Martinez

Entre duas torres
Eis que surge pros poetas
A pálida lua
Alberto Murata

sexta-feira, 19 de março de 2010

Resultado do 1o. concurso Nenpuku Sato 2010

Saiu o resultado do primeiro Concurso Nacional de Haicai Nenpuku Sato, organizado pelo jornal Memai Letras e Artes Japonesas. Destaque para o merecido primeiro lugar:

Os vencedores são:
Primeiro lugar
-- Feliz Ano Novo!
A voz de meu pai velhinho
Cada vez mais débil.
Francisco Handa, São Paulo, SP

Segundo lugar
Dia de Ano Novo
Numa janela de asilo
Um grou de papel
Eduard Tara, Romania, Europe

Terceiro lugar
Calendário Novo
Pendurado na parede
Quais são as surpresas!
Tereza Delong, Irati, PR

domingo, 14 de março de 2010

Carnaval

Abaixo o derradeiro haicai sobre Carnaval da 'safra' 2010. Mais sobre o tema somente em 2011!

A guerra de espuma
travada entre meninos --
Carnaval de rua

Haicai: Monica Martinez

terça-feira, 9 de março de 2010

Confete

Escrito na quarta-feira de cinzas:

Caído no chão
O confete solitário --
Final da folia

Haicai: Monica Martinez

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Mariposa

Um dos desafios para o primeiro encontro do ano do Grêmio Haicai Ipê, realizado no sábado, dia 6 de fevereiro de 2010, era fazer um poema sobre uma mariposa, inseto de hábito noturno comum no verão.

Confira abaixo o ganhador do evento, disputado entre 29 haicais, já com as sempre oportunas sugestões da mestra Teruko Oda inclusas:

Um bater de asas --
A pequena mariposa
no vidro da sala.

Haicai: Monica Martinez

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dia de outono











Dia de outono
Em permanente zazen
O Buda de pedra


Haicai e Foto: Monica Martinez (Jardim Tropical Monte Palace, Ilha da Madeira, Portugal).